A Grande Tragédia das Cinzas Negras

Published on September 17, 2026 at 8:49 PM

À Mariana.

 

Capítulo I: Floresta Acidentada 

Há algum tempo que perdi o controlo sobre a minha identidade. É uma interessante ironia, porque sempre me insurgi contra os «não identitários». Mas a verdade é que sinto um pesado sentimento de esvaziamento do ser, como se um corpo estranho tivesse sugado aquilo a que em  muitas culturas, costumes e tradições se designa por «alma». Quando imagino a minha alma, imagino uma imensidão de bosques depois de incendiados, com uma densa poeira acizentada que levanta sobre um sopro denso e inaudível, exibindo cadáveres de pinheiros selvagens. Aquilo que antes seria uma casca robusta, encontra-se agora reduzida a uma estaca erguida a descamar. Imagino um ciclo de vida a tentar reerguer-se numa espiral de cinzas que recupera pequenos vestígios incinerados do que outrora foi um sistema alegre e vivaço, farto de esperança. Na paisagem defunta e apocalíptica, avista-se uma região semi-montanhosa, uma moldura rochosa coberta de musgo, na zona nordeste da antiga floresta em estado de cremação e de luto. Os aventureiros temerários que cruzam caminhos com aquela região mórbida, maculada de tragédia, apelidam-na de «Floresta Acidentada». Talvez porque se assemelhe a um grande acidente, oculto dos mapas e da imaginação dos mais entusiastas da vida terrestre. Perto do cimo da zona rochosa, avista-se o que parece ser uma habitação modesta, pensada para albergar pessoas muito pequenas.  

Os conhecedores mais supersticiosos escrevem nas suas doutrinas modestas que a minha alma fora-me cruelmente arrancada e vendida a uma colecionadora misteriosa, uma senhora de semblante magro e pescoço alto, coberta por um manto negro de penas de corvo e pérolas de coloração escura, cintilando vozes de amargura. Diz-se que percorreu todo o bosque em meu socorro, atraída pelos gritos agudos e fantasmagóricos de quem se acusa já não ser ninguém. A pequena vida que cresce na zona nordeste bebeu das minhas lágrimas e serviu-se das réstias da minha humanidade. Se é que alguma vez fui humana. Talvez tenha sido, embora a memória me falhe. 

Uma habitação calorosa, repleta de vasos de alfazema importada da montanha vizinha, sobreluz energeticamente, contrastando com o negrume paisagístico. As cinzas sobrevivas que envolvem a madeira esculpida, servindo de mobília ao pequeno lar, aprisionam no seu interior um odor bafiento. A absorção dos horrores passados pelas paredes daquela casinha engenhosa é ligeiramente apaziguada pela frescura doce da alfazema, cuidadosamente vertida em óleo e confinada em artefactos de elevada sofisticação artística. A autora daquelas obras delicadas é uma jovem chamada Mariana, a mais alta da sua geração, de longos cabelos negros e volumosos, olhos redondos e curiosos, ostentando uma cor indefinida.  

Todas as manhãs solta-se uma neblina que carrega um aroma celestial, uma atenuação envolvente, picante, quase sápida das chamas ardidas. O aroma é tão hipnotizante que faz os terrenos esquecer o caos e a destruição. O pequeno Tomás, uma criança calada, profundamente imaginativa e pouco impressionante nas qualidades de fala, estendia o braço e dobrava a palma da mão para colher as cinzas que rodopiavam em torno da varanda de pedra brunida. Timidamente, como se soubesse ser escutado, proferia lentamente a palavra «neve». Olhando em redor e conhecendo uma sensação de segurança temporária, esboçou um grande sorriso e recitou uma palavra cara: «granizo».  

         - És mesmo imbecil. Só um parvajão como tu para acreditar nas Estações do Ano! - exclamou Vicente, um homem feito, pedante, de olhos rasgados e cheios de vaidade. Dotado de uma inteligência pouco aproveitada, em boa parte consumida por uma arrogância inata, esforçava-se obstinadamente para disfarçar uma leve expressão de vulnerabilidade no seu olhar cruel e impiedoso. 

         - Não o oiças querido Tomás, não é porque não as vês que Elas não existam. - disse Mariana, enquanto amassava uma pasta consistente e enfarinhada sobre a mesa redonda de pedra maciça que ocupava praticamente todo o espaço da salinha principal. 

A identidade de Vicente era mais comovente do que frustrante. As suas persistentes investidas na instauração de desgoverno familiar e humilhação dos mais frágeis revelavam antes um estado de grande aflição anterior. O nervosismo constante era visível na movimentação do seu corpo, que por vezes tiritava com uma simples exibição pública das suas cogitações, especialmente na presença do Senhor Pai. Vicente nascera com grande dificuldade: o parto durara dezasseis horas, e em menos tempo contraíra uma infeção pulmonar, que pensa-se ter sido provocada pela inalação imediata das cinzas e das fumaças que ainda circulavam naquele ecossistema invertido e caliginoso. A recuperação não foi difícil, mas condenou-o a uma vivência sofrida e inodora.  

        - As Estações do Ano não passam de uma fábula para assustar as crianças! - retrucou Leonor, com uma raiva incompreensível. Leonor tinha olhos escuros cor de carvão como se tivessem sido estorricados pelas chamas, transmitindo um olhar vazio e interminável. Carregava da raiz a alguns centímetros abaixo dos ombros longos cabelos luminosos, resplandecendo uma cópia perfeita dos escassos raios de sol que enfaixavam a região, numa tentativa mal sucedida de encobrir o cenário excruciante e funesto. Ainda que impetuosa e muito temperamental, tinha um gesto delicado e um andar suave. Era possessiva em relação ao pequeno Tomás e nutria um grande ciúme de Mariana, que a provocava com a sua estatura mediana e as palavras sábias que professava em nome do «bem-estar e conhecimento familiar», enquanto se encontrava na copa da alegre casinha a executar tarefas que considerava serem de uma pobreza ofensiva para o seu estatuto de segunda mais velha - E tu? O que fazes aí especada?!  

Mariana envolveu-se de uma aura calma e fulgurante apesar da despiedade da irmã, e com uma expressão amável e sorridente afirmou:  

     - Estou a preparar uma oferenda para a Colecionadora. 

   - A Colecionadora rir-se-á de ti. Pensas que será conquistada com tartes de maçãs e palavras fabricadas? - perguntava Leonor, com as faces ruborizadas e um olhar detestável, todavia incapaz de instalar o furor que lhe saltava das veias, envolvidas que estavam na serenidade do lar e no aroma fresco a alfazema e a lírios brancos que requintavam a pequena divisão. 

   - Podes troçar à vontade. Fá-lo-ei pela família - respondeu com serenidade, enquanto enrolava pequenas porções da massa que engroçavam à medida que hospedavam o toque suave das suas mãos franzinas e delicadas.  

Vicente, néscio por convicção, aplaudia Leonor com um olhar pérfido enterrado no rosto magro e lívido de inveja.  

Todas as paredes da casa eram robustas e espessas, construídas em tijolo cromatizado em castanho rústico, com o labor severo e pungente do Senhor Pai, miraculosamente encaixadas por entre as rochas da montanha. A opacidade daquelas paredes, a grande custo do esforço e exsudação do Senhor Pai, eram no entanto totalmente imunes à permeabilidade prava da antiga tragédia.  

Há alguns anos que observo Leonor com a devoção e firmeza convocadas pelo seu estatuto alto e prestigiante de sujeito terreno sobrevivo à cognominada «Grande Tragédia das Cinzas Negras». Concedo-me a honra da pertinência e qualidade das minhas observações, deixando uma opinião modesta mas autorizada, de que Leonor estava em plena segurança, pelo menos ao que o momento presente respeita, da cobiça sôfrega da conspectiva Colecionadora.  

Embora achem-se sozinhos, os terrenos vizinhos do vale mais próximo, conhecido como o Vale Acuminado, organizavam-se em pequenas povoações em advento rudimentar sondando interessadamente a região, em busca de celebrarem acordos questuosos de longo prazo com a Colecionadora. A designação de «Vale Acuminado» justifica-se pelas pedras pontiagudas que, de um modo proveitosamente estratégico mas absolutamente disposto por acaso, atrapalhavam a entrada de visitantes que desconhecessem a destreza necessária à travessia. 

No meio do bosque carbonizado, avistava-se um caminho arborizado de bétulas brancas que despontavam em plena saúde, deixando um belo rasto de folhas dentilhadas que perfumavam a zona do solo à superfície, mas não conseguiam diluir o ambiente sorumbático e luctífero, há muito ali alojado. Por de trás de um grande monólito, prosperava um pomar sagrado com uma única espécie arborícola. Eram majestosas macieiras, erigidas por meio de forças desconhecidas, das quais irrompiam maçãs encarnadas, com gosto a mel e açúcar, envolvidas por uma película brilhante, da mais brilhante que a memória viva da Terra alguma vez conhecera. As causas da sua sobrevivência eram igualmente desconhecidas. As maçãs que delas nasciam eram o principal sustento da família, quase o único, a que acresciam as trocas feitas com a montanha vizinha, seladas por acordos com uma chancela autenticada, figurando uma insígnia profundamente estranha aos terrenos da Floresta Acidentada. Um pequeno riacho, que passava por entre as árvores com vida, permitiu nutrir algumas gerações de pequenos roedores, entre os quais coelhos felpudos, que alternavam entre uma pelugem branca e macia, ou cinzenta e seca, concordante com as cores emblemáticas da região.  

Admiro Mariana, uma encantadora e amável menina, gentil de coração e pura de alma; contrariamente a mim, misantropa, traída por todos, desajeitadamente infeliz e desgraçada para a eternidade. Entre muitos dos seus talentos, da bonomia à elegância, gostava de inscrever os princípios de união familiar nos seus prezados irmãos mais novos, o Benjamim e o pequeno Tomás, que tinham uma alegre e fiel disposição infante e desmaliciosa para ouvi-la. Todos os serões aconchegava-os nas suas minúsculas caminhas em tecido de algodão, contando-lhes mitos e lendas que lhes causavam grande entusiasmo, ao mesmo tempo que se sentiam entorpecidos depois de penteados os seus cabelos cor de fogo, num gesto acariciante e delicado. Durante o período de gestação, pensava-se que Benjamim seria o último da ninhada. Tão pequenos eram os fetos que julgava-se constituírem apenas um. Quando a respeitada Senhora Mãe dera à luz, apressara-se a chamar o seu filho de Benjamim, em perfeita adequação. Tal fora a surpresa da aparição de novas contrações, trazendo à vida terrestre o pequeno Tomás, um minuto e quarenta e sete segundos mais novo que Benjamim.  

Benjamim era risonho, falador, avançado para a idade e um aventureiro em excesso, pelo menos para a saúde da Senhora Mãe. Com uma cabeça sonhadora e um espírito de indomável guerrilheiro, passava as tardes a rabiscar com um troço de carvão arquétipos de pequenos mapas para atravessar o Vale Acuminado. Tinha o hábito de espreitar pela varanda de pedra esculpida, com um acabamento imperfeito às mãos vigorosas do Senhor Pai, mas perfeitamente segura aos nervos da Senhora Mãe. A curiosidade partilhada com o pequeno Tomás assegurava uma mistura irisada de peripécias programadas, quase sempre vividas no espartilho de uma imaginação comunicada. Em constante maquinação, serviam-se de um pequeno compartimento cuja entrada encontrava-se atravancada por uma portilha estreita de madeira velha e escurecida. Com um truque lesto engendrado pelo pequeno Tomás, largas vezes subestimado na inteligência, os gémeos desparafusavam o acesso e executavam um apertado trajeto por entre espelhos estilhaçados e objetos sumptuosos, que miravam com uma curiosidade digna de uma puerícia meiga e astuta. Chegados ao final do difícil trajeto, com o auxílio da caixa de fósforo cautelosamente subtraída à ira de Vicente, instalavam-se no seu conventículo, onde Benjamim meditava em liderança o plano da próxima excursão ao Vale Acuminado (ou «invasão dos cavaleiros nobres», como lhe preferiam chamar, embora sem nunca ter visto um cavalo). 

        - Não suporto nem mais um dia a mastigar maçãs. São tartes de maçã, maçãs assadas, maçã caramelizada, maçã cozida...oxalá aquele lugarejo a que o Pai chama de carpintaria nos desse algum sustento - queixou-se Leonor, já em pleno fastio causado pelo teatro que ensaiava a uma audiência nula, que se resumia à remoção de nódoas inscritas nos panos de linho comprados a gosto da Senhora Mãe à montanha vizinha.  

As preocupações saturadas de impiedade e truculência de Leonor não eram, todavia, de desmerecer, considerando a situação remediada dos sobrevivos da região esmarrida. Graças ao tiro certeiro de Vicente, com um irrepreensível instinto de caça, embora, como sabemos, aleijado no faro, a família podia enfartar-se com doses razoáveis de coelho, as quais Mariana se recusava a saborear, tanto era o seu apreço por aquelas criaturas. Vicente detinha um imenso prazer em manducar com um olhar tirânico diretamente recaído sobre Mariana, que optava por concentrar as suas energias em amáveis preces, naquela situação de uma tristeza patética e frívola. Os feitos de caça de Vicente eram objeto de troca com o único mineiro da região, o Senhor José, no conhecimento de todos que ocultava o seu verdadeiro nome. José era canhestro, tinha um rosto comprido e esquelético, a que se juntava em grande assombro um monóculo completamente enterrado no olho direito. Além de uma aparição particularmente sombria, era amazorrado e um autêntico velhaco oportunista. A mina onde trabalhava permitia a extração de âmbar negro, uma riqueza da predileção particular da Colecionadora.  

Enquanto Leonor falecia de tédio na cozinha e Mariana se devotava numa santidade natural, o pequeno Tomás, a mando do seu superior Benjamim, atava em cadeia todos os tecidos que conseguiram usurpar, tendo mesmo de recorrer a um dos vestidos da Senhora Mãe, com a gentileza de poupar as sedas púrpuras. Em conjunto, lançaram da varanda uma amarra argutamente montada, o melhor modelo que havia sido concebido até agora, e num credo desceram até à maldição da floresta. A verdade é que o pequeno Tomás temia as espécies de roedores que viviam nos túneis de acesso ao solo e Benjamim considerava-os desqualificantes para o seu estatuto de corajoso cavaleiro, senão mesmo desinteressantes, sem conforto algum nos seus protótipos de aventuras, objeto de tantas horas de dedicação.  

A floresta defunta e negra agora reluzia com dois rebentos avermelhados a saltitar alegremente, enquanto ecoavam todas as estultices, insensatezes e impropriedades que continham em boa esperteza, não quisessem conhecer o enraivecimento feroz do Senhor Pai. Benjamim corria disparadamente quando o seu pé minúsculo enrodilhou-se numa corda áspera, que o ergueu até ao cimo de uma árvore ardida mas perfeitamente robusta para suportar os seus seis quilos e quatrocentas gramas. Em pânico, o pequeno Tomás começa a fazer um exercício de rodopio ininterrupto em torno da árvore, acabando por cair num buraco coberto com um troço de madeira fina, disfarçado com terra parda.  

     - Sentes este odor? - perguntou Mariana a Leonor. 

    - Cheira a...ratazana...ratazana estorricada! - tremelicava Leonor. 

     - Só existe uma coisa com este cheiro.  

     - A Colecionadora! - exclamaram as duas simultaneamente, em olhar sintónico de horror e paralisia súbita. 

 

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